Quando pensamos sobre 007, muitas coisas vêm à cabeça. O espião britânico, os diversos utensílios bizarros, as mulheres sempre muito bonitas, os vilões maquiavélicos, etc. Todas essas são marcas clássicas da franquia, e acompanham a história de James Bond desde o seu início. Mas para além de tudo isso, os filmes de 007 também são muito lembrados por suas canções marcantes.
Desde seus primeiros anos, cada filme dessa prolongada franquia é acompanhado por uma música tema diferente. Cada uma dessas músicas é composta por algum cantor ou grupo popular na época, e refletem muito bem a passagem da franquia através dos anos, com alguns temas que se repetem ao longo das canções, e outros que são adicionados em momentos diferentes. Com a chegada do 25° filme dessa saga, selecionamos algumas das principais canções compostas para os filmes de 007 e que marcaram as suas épocas de maneira mais intensa. Aproveitamos também para fazer uma menção honrosa a Billie Eilish, que se une ao hall dos grandes artistas da franquia com o seu single "No Time to Die".
GOLDFINGER
Embora os dois primeiros filmes da franquia tenham tido as suas próprias canções incorporadas ao filme, 007 Contra Goldfinger foi o primeiro a incluir uma abertura na qual a canção é tocada. Essa mudança logo se tornou uma característica marcante da franquia, repetindo-se em praticamente todos os filmes subsequentes. Também marcou o começo da tradição da saga de sempre se associar a grandes cantores do momento, trazendo para a primeira performance a cantora Shirley Bassey.
"Goldfinger" é uma balada icônica para 007, não apenas por ser a primeira com uma abertura, mas também porque seu ritmo e letra estão completamente ligados à trama do filme. Falando de um homem completamente obcecado por ouro e que, por isso, é incapaz de amar de verdade qualquer outra coisa ou qualquer pessoa, a música se constrói como uma balada ao mesmo tempo tenra e agressiva, como se fosse de verdade um alerta para todos ficarem longe do homem e não acreditarem em suas palavras doces, pois elas escondem mãos assassinas e um coração frio. É bem surpreendente que, apesar da música se referir ao vilão, Goldfinger, vários de seus trechos também podem se referir à natureza galanteadora e cafajeste do próprio 007.
WE HAVE ALL THE TIME IN THE WORLD
Depois de alguns grandes sucessos em seus filmes, 007 decidiu não colocar uma abertura com canção em A Serviço Secreto de Sua Majestade. O único file do espião interpretado por George Lazenby parece se destacar dos demais por causa desse fator, mas nem por isso o longa ficou sem uma canção. A diferença é que "We Have All The Time in The World", cantada por Louis Armstrong, foi incluída apenas no fim do filme, durante os créditos finais. E sua melodia mais calma e melancólica certamente condiz com o fim trágico desse filme.
O tema da música é o amor, e de como sempre parecermos ter todo o tempo do mundo para ele, mesmo que isso não seja verdade. Essa ideia reflete muito bem a trama amorosa entre Bond e Theresa DiVizenzo, que culmina em seu belo, mas curto casamento. Louis Armstrong interpreta a situação final com perfeição, e sua voz única fala dom sinceridade sobre a duração eterna do amor, mesmo que a vida dos amantes não seja eterna. É certamente uma grande homenagem a Theresa, ainda hoje considerada como uma das melhores Bond-girls da franquia. Homenagem essa que é retomada na cena inicial de Somente para Seus Olhos.
LIVE AND LET DIE
A nova era do 007 com Roger Moore precisava de um grande início. Algo que provasse aos fãs dos primeiros filmes que o herdeiro de Sean Connery seria um agente tão carismático e eficiente quanto ele. Para isso, era necessário que o primeiro filme realmente vendesse como a nova era de James Bond seria, tanto em sua trama quanto em sua música. Por isso, "Live and Let Die", da banda The Wings, tem um valor tão importante para a franquia. Não só é um ótimo preparativo para o que seria a era Roger Moore, como também vende com eficiência tremenda a narrativa de seu filme.
Embora mais sério que seus sucessores, Com 007 Viva e Deixe Morrer já revelou um tom menos intenso e um pouco mais caricato para a representação. Com Roger Moore, Bond abandonou alguns traços mais agressivos em troca de uma personalidade mais astuta e galanteadora, cheia de pequenos truques e ferramentas absurdas desenvolvidas pelo personagem Q. Ao mesmo tempo, o primeiro filme conseguiu se vender como uma trama mais séria dessa nova era, e "Live and Let Die" encarna essa mistura perfeitamente. Com um rock mais explosivo, ela traz o tema da ação e do conflito, mas de uma maneira mais leve do que os filmes anteriores, dando aos conflitos do agente um tom mais voltado para a aventura do que para o suspense e a investigação. Para o bem ou para o mal, foi um tema definitivo para a nova fase de 007. Seu sucesso foi tamanho que conquistou a primeiro indicação ao Oscar de Canção Original da franquia.
NOBODY DOES IT BETTER
Durante muito tempo, as músicas-tema dos filmes de 007 sempre foram voltadas para a ação, a intensidade explosiva ou o mundo da espionagem. Muitas das canções clássicas refletiam a natureza irreverente, sedutora e perigosa de Bond, mas a era de Roger Moore trouxe uma nova temática para elas: o relacionamento amoroso. E O Espião que Me Amava foi o momento perfeito para a introdução desse novo tema, visto que o relacionamento amoroso de Bond nesse filme foi explorado de uma maneira diferente da dos filmes anteriores.
Assim, "Nobody Does It Better" introduz uma letra que fala justamente do amor entre dois espiões, trazendo aspectos que caracterizam como seria uma relação com James Bond: ele é o melhor nesse aspecto, mas um relacionamento com ele é fruto de inúmeros arrependimentos. Também é interessante como os temas da espionagem e do amor se misturam, com o espião conferindo à sua parceira uma certa segurança de que seus segredos e vulnerabilidades nunca serão revelados. Soma-se a isso a voz de Carly Simon, e temos uma grande canção de amor, tão diferente das anteriores da franquia que conquistou uma indicação ao Oscar de Melhor Canção Original.
FOR YOUR EYES ONLY
Assim como "Nobody Does Ot Better", "For Your Eyes Only" também representa uma opção por uma canção amorosa em um filme do 007, mas que se conecta à maneira como Bond percebe os segredos de seu interesse amoroso nessa nova aventura. Marcando a entrada da franquia nos anos 80, 007 - Somente Para os Seus Olhos trouxe consigo uma das maiores estrelas daquela década, Sheena Easton, para cantar a música-tema da jornada de James Bond em busca de perdão pela perda de Theresa e sua influência em uma moça que almeja vingança pela morte do pai.
A nova canção traz novamente a mistura de sedução amorosa com o mundo da espionagem, como se indicasse que os segredos de uma amante são somente para o espião que ela ama, que só ele pode desvendá-los e que ele é o único que pode mantê-los a salvo. Novamente, temos a temática da confiança e da segurança em meio à vulnerabilidade, marca registrada de muitas das canções da franquia. Os Anos 80 podem ter marcado o momento em que a franquia de fato se perdeu, começando a se tornar muito repetitiva e caricata, mas o primeiro filme da nova década ainda assim conseguiu trazer os fãs de volta para o mundo amoroso de James Bond.
A VIEW TO A KILL
Após um período repleto de canções amorosas, 007 retornou aos velhos moldes musicais, trazendo trazendo uma canção mais voltada para a energia da ação e o impacto explosivo de James Bond. E mesmo que 007 - Na Mira dos Assassinos não seja o filme mais lembrado da franquia, a música "A View To a Kill" interpretada pelo icônico grupo Duran Duran, é certamente digna de nota.
Mais uma vez se valendo de um grupo de sucesso da época, a franquia mantém a temática de músicas com um caráter mais sensual, mas agora retorna também ao tema do suspense, à expectativa de um encontro fatal e ao perigo do mundo da espionagem, onde cada momento pode proporcionar ao agente uma vista para um assassinato. Quer seja o seu próprio, o de um alvo ou de alguma pessoa sem relação com a disputa, o mundo do qual 007 faz parte é repleto de perigos, e a música, que traz um ritmo de rock e uma letra pesada, certamente consegue retratar esse dia-a-dia sombrio.
THE WORLD IS NOT ENOUGH
Os Anos 90 foram uma queda gigantesca para o agente James Bond. Após um respiro de esperança com a entrada de Pierce Brosnan no papel e o sucesso de 007 Contra Goldeneye, os filmes seguintes foram pouco chamativos e pouco interessantes. Alguns até satirizaram a decadência do espião, mas mesmo isso não conseguiu trazer o público de volta à franquia. Por isso, é uma pena que alguns grandes sucessos da década tenham se perdido nas músicas desses filmes. Entre alguns nomes que participaram dessa era, está o da banda Garbage, que marcou presença com a música "The World Is Not Enough".
Mesmo que 007 - O Mundo Não É o Bastante não seja um sucesso dentro da franquia, sua música é digna de atenção. Sua melodia é pesada e sua letra é melancólica e desejosa, trazendo em si o lado da ambição que acompanha o espião e, principalmente, seus vilões. Tanto o herói como suas companheiras e seus antagonistas apresentam habilidades especiais, listadas nos versos da canção, habilidades essas que garantiriam o domínio do mundo caso eles desejassem. Mas, como a própria letra afirma, mesmo a conquista do mundo não parece ser o bastante para saciar esse desejo. Esta é, sem dúvida, uma visão bem interessante do mundo de 007, uma que, salvo pela exploração do tema amoroso, outras canções não exploraram com tanta ênfase.
DIE ANOTHER DAY
A entrada da franquia nos Anos 2000 foi saudada com uma música que retratava o estilo dos primeiros anos do novo milênio. Trazendo consigo a diva Madonna, a canção principal de 007 - Um Novo Dia para Morrer apresentou um estilo bastante pop, introduzindo elementos de eletrônica e um ritmo mais animado. Marcando o fim da era Brosnan, "Die Another Day" deu à franquia um certo ar de modernidade na época, mesmo que não fosse o tipo de atualização da qual os filmes precisavam.
Seguindo uma abertura na qual vemos James Bond capturado (algo que dificilmente havíamos visto até então), a música acompanha as sessões de tortura do espião, em que seus inimigos tentam desesperadamente extrair informações dele. Com um refrão que diz "I'll just die another day", a música enfatiza a luta de Bond para sobreviver a essa situação sem revelar nada a seus inimigos, expondo o personagem a um momento de imensa vulnerabilidade no qual dificilmente o havíamos visto. É claro que os filmes subsequentes exploraram mais essa condição humana do agente, mas acompanhar uma abertura tão visceral ao som de uma música apropriada para o momento certamente era algo novo para os fãs da saga.
YOU KNOW MY NAME
A era de Daniel Craig como Bond foi a que ofereceu uma análise e uma evolução maior do personagem em toda a sua história. E, desde seus momentos iniciais, estava claro que essa revisão do agente seria um caminho a ser tomado pela nova era. Assim, 007 - Cassino Royale já apresentou um ponto de vista mais crítico sobre o personagem e seus hábitos e tentou alterar alguns de seus pontos principais, mesmo que de maneira mais sutil inicialmente. E em meio a essa modernização do personagem, a canção "You Know My Name" oferece um ponto de vista extremamente interessante para a análise.
Com a voz de Chris Cornell, a música-tema do filme assumiu um ar bastante melancólico, mesmo com um ritmo voltado para a ação e a explosão. Essa mistura é extremamente efetiva, unindo o lado explosivo já conhecido do personagem com uma reflexão crítica sobre todos os seus anos de atuação, em que ele tirou inúmeras vidas, viu muitos amigos serem mortos e precisou andar o tempo todo armado e preparado. Ao revelar essas questões por um ponto de vista mais melancólico, Cornell tira qualquer glamour da vida de espião, já mostrando ao público que a nova era do personagem seria a mais séria e realista até então.
SKYFALL
Se Cassino Royale apresentou um 007 mais sério e realista, Operação Skyfall levou esse lado mais ao fundo. Questionando a necessidade de espiões em um mundo onde a tecnologia fornece muito mais informações sobre todas as pessoas do que qualquer humano poderia, o filme já aponta para o caráter ultrapassado de alguém como James Bond, além de sua necessidade de se modernizar ou deixar de existir. Por isso, a canção "Skyfall", de Adele, é tão interessante na história do espião, retratando um momento de enorme autocrítica para o personagem.
Essa canção é sem dúvida diferente de todas as outras da franquia. Nada nela diz respeito a ação, a canções amorosas ou à ambição de um vilão. Tudo nela retrata uma melancolia reflexiva, na qual temos a impressão de que James Bond chegou ao fim. A música quase que analisa a sua carreira como espião, seus pontos fortes e fracos e seus méritos para, no final, aceitar o inevitável fim. Mesmo que a saga do personagem não tenha acabado ali, a canção vencedora do Oscar certamente inspirou a continuação da franquia, com "Writing's On the Wall" e "No Time to Die" assumindo um tom parecido de melancolia que combina bastante com o realismo assumido pela franquia em seus últimos anos.
Essas foram algumas das principais canções da franquia 007. Desde seu segundo filme, lançado em 1963, a saga do espião inglês fez um uso massivo de músicas-tema envolventes e apaixonantes, compondo uma trilha sonora memorável e invejável que explorou o melhor de cada um das eras pelas quais o espião passou. E você? Qual a sua canção favorita de um filme de 007?