A ideia da sobrevivência do homem contra grandes predadores selvagens sempre inspirou o cinema a transformar esses animais em feras assassinas e monstros sanguinários, criando um subgênero bem específico que já explorou de tubarões a crocodilos, passando por lobos, ursos e até mesmo insetos. Em A Fera, a fera escolhida é uma das favoritas desse tipo de filme: um leão solitário.
A trama do filme segue alguns preceitos básicos de narrativa. O protagonista, Nathan (Idris Elba) é um pai viúvo que enfrenta dificuldades em seu relacionamento com suas filhas Meredith (Iyana Halley) e Norah (Leah Jeffries). Na tentativa de se reconectar com elas, ele leva a família para um safari na África do Sul, na reserva cuidada por seu amigo Martin (Sharlto Copley). Contudo, o passeio logo se torna um pesadelo quando a família se vê encurralada por um leão macho sedento por sangue, que os mantém presos em uma região sem acesso a comunicação e fora da rota principal de turismo.

Não há muito o que contar aqui. É uma clássica história de homem contra animal que força os humanos a abraçarem seus maiores instintos de sobrevivência para escaparem da situação. E, surpreendentemente, A Fera não tenta ser mais do que isso. Mesmo que para isso sacrifique qualquer possibilidade de algo inovador e diferente, o filme opta por se manter simples e fiel à sua proposta, sem introduzir elementos extraordinários ou colocar seu predador em algum patamar sobrenatural. Isso se torna um alívio bem vindo, visto que filmes desse gênero nos últimos anos tentaram continuamente apelar para o "elemento a mais" que tira a credibilidade de sua história, colocando coisas como "não é um tubarão qualquer: é um tubarão enorme!" e coisas do tipo.

A simplicidade estabelecida pela trama, contudo, também significa clichês a todo o instante, em especial na composição dos personagens. Idris Elba interpreta o típico pai afastado das filhas e que sofre pelo luto de ter perdido a mulher, existe um conflito com a filha mais velha, que o culpa pela perda da mãe, esses conflitos pessoais surgem sempre nos piores momentos possíveis e complicam ainda mais a situação. Do lado do conflito com a fera, o filme também mantém elementos conhecidos como a brutalidade irrefreável da criatura e a constante necessidade de entendimento e adaptação dos personagens para sobreviverem, o que resulta ora em momentos de extrema inteligência, ora em situações que forçam um pouco a credibilidade de sua efetividade.

Mas o elemento no qual o longa mais se destaca é na construção da tensão. Mesmo antes dos ataques se iniciarem, existe um uso contínuo de sequências longas, com a câmera se movendo constantemente de um lado para o outro, acompanhando os personagens sem necessariamente mostrar o que eles estão vendo. Quando a ameaça de fato surge, o resultado dessas técnicas é a criação de uma sensação de tocaia e ansiedade, como se estivéssemos procurando pelo predador da mesma maneira que os personagens, tentando prever de onde o ataque vai surgir.

Para além do uso desses movimentos de câmera, A Fera também se privilegia do uso de seu leão, alternando entre cortes rápidos de ataques brutais e cenas mais longas que acompanham o movimento de espreita da criatura. Sem medo de mostrar seu animal de efeitos especiais, o filme coloca o animal em cena e em ação, sem cortar seus momentos de ferocidade e dando ao público uma sensação maior de perigo.
A Fera é um filme que faz seu dever de casa básico muito bem e não se compromete a ir mais além, o que acaba sendo muito bom. Como se reconhecesse que esse tipo de gênero já não surpreende o público por si só, o longa opta por fazer algo repetido, mas bem feito, de forma que mesmo que saibamos como a história vai prosseguir, ainda assim sofremos alguns sustos e somos levados pela construção do ambiente tenso e angustiante. Sem surpreender, ele também não decepciona e deixa o público com a sensação de "esse é o filme que eu esperava ver, sem mais nem menos".
Para os interessados, A Fera estreou no dia 11 de agosto e já está disponível nos cinemas do país.