Uma viagem pelo deserto inclemente, uma jornada em meio a uma selva fechada, a travessia de um mar tenebroso rumo a uma ilha paradisíaca. Por anos, o gênero de aventura têm alimentado nossa imaginação a respeito de lugares desconhecidos do planeta. Normalmente estabelecidos em uma época passada, onde tais lugares do globo ainda eram inóspitos para as civilizações europeia e estadunidense, os filmes de aventura se tornaram famosos por suas jornadas divertidas, repletas de perigos e momentos engraçados.
Como um dos maiores gêneros do entretenimento, a aventura obteve muito sucesso principalmente com um público mais juvenil, ainda ávido por descobrir o mundo e disposto a acreditar mais facilmente em mistérios e acontecimentos mitológicos. E seu sucesso ao longo dos anos foi tão grande que sua fórmula, datada dos primórdios do cinema, continua a existir, tendo se alterado levemente ao longo dos anos para se adequar aos novos tempos. E foi através dessa adequação, somada ao uso cada vez maior dos efeitos especiais, que a aventura trilhou seu caminho até os dias de hoje como um dos gêneros mais populares do cinema.
OS ITENS BÁSICOS DE UMA AVENTURA: TESOURO, TERRA E CASAL
Seja em uma aventura em alto-mar ou em uma jornada pela selva, toda viagem aventureira é dotada de alguns elementos básicos que se repetem com enorme frequência nos filmes do gênero. O primeiro deles é o motivo para a viagem acontecer, o tesouro que é procurado.
Nos filmes de aventura, geralmente acompanhamos um casal ou um grupo de pessoas ambiciosas que, ao se depararem com alguma lenda antiga, são motivados a irem atrás de um tesouro valiosíssimo que, segundo dizem, está escondido em alguma terra distante e intocada. Pode ser uma quantidade absurda de ouro pertencente a alguma civilização antiga, um artefato religioso de grande valor ou mesmo uma fruta ou planta com poderes místicos e grandes propriedades medicinais. Seja o que for, a ambição desse grupo os leva a deixarem suas casas para se embrenharem numa jornada perigosa atrás desse objeto tão valioso.

E é então que chegamos ao segundo elemento de uma grande aventura: a terra. Por se inspirarem muito em antigos romances europeus sobre aventuras de desbravamento nas colônias imperialistas, esses filmes carregam uma visão bastante carregada sobre como as terras da América, Ásia e África são inóspitas e selvagens. A ideia é realmente chocar o público com a enorme diferença entre o mundo dito "civilizado" e essa nova sociedade inexplorada, indomada e cheia de perigos. Para se criar a noção de uma aventura de verdade, é preciso tirar as pessoas de seu local de conforto e colocá-las em um ambiente onde elas tenham algo para descobrir.
Mas é claro que essa jornada não pode ser apenas sobre perigos. É preciso haver um romance. E é por isso que quase toda grande aventura cinematográfica possui um casal protagonista. No geral, esse casal é formado por uma moça do grupo recém-chegado de exploradores, ambiciosa e excitada por uma aventura, mas ainda ingênua sobre os perigos do local, e o guia da jornada, um homem que viveu no local por mais tempo e sabe lidar com os perigos que o cercam. Por serem tão diferentes, os dois geralmente começam o filme não se gostando, e vão desenvolvendo uma relação mais amigável e, depois, apaixonada, conforme o filme vai passando e os dois vão enfrentando perigos juntos.

Com esses três elementos básicos, os filmes de viagens e aventura constroem a sua narrativa de forma bastante sólida. O tesouro a ser procurado é o objetivo final da trama, a terra inóspita e seus perigos, bem como outros caçadores rivais, são os obstáculos e conflitos principais a serem enfrentados, e o relacionamento dos dois protagonistas guia o desenvolvimento deles durante o enredo. Em meio a isso, muitos filmes adicionam vários outros aspectos interessantes, como armadilhas, maldições ou entidades extremamente antigas e perigosas que buscam o poder do tesouro. Tudo para proporcionar o público a sensação de exótico e inexplorado.

AS TERRAS EXÓTICAS: UMA VISÃO EUROCÊNTRICA
Como já foi dito, os filmes de aventura são inspirados em diversos romances europeus de viagens pelas terras coloniais em outros continentes. Por conta disso, sua visão é extremamente afetada por uma ideia bastante disseminada na Europa imperialista. Como consequência, o retrato feito pelos filmes dos locais para onde seus personagens vão carrega sempre as mesmas características preconceituosas e clichês.
O principal ponto de choque é justamente a concepção de que qualquer lugar que não seja a Europa ou tocado por europeus é, sem sombra de dúvida, selvagem e pouco civilizado. Por causa disso, esses filmes sempre retratam seus ambientes como os mais selvagens possíveis, rodeados de florestas fechadas, desertos inexplorados, animais selvagens perigosos, tempestades inclementes, praias paradisíacas intocáveis, etc. E, no meio de tudo isso, existe um pequeno reduto de civilização: uma colônia europeia onde alguns homens brancos começam a levar as "maravilhas" do mundo civilizado para os povos selvagens.

Esse retrato se espalha também para os nativos, que também se dividem em dois grupos: aqueles que já entraram em contato com os europeus e, portanto, estão sendo "civilizados" por eles; e os que se escondem em algum lugar isolado e mantêm-se primitivos, pelo menos até os personagens do filme os encontrarem. Depois que eles os encontram, esses nativos reclusos têm duas possibilidades, podendo ou aprender com os homens civilizados, ou serem completamente vencidos por eles em combate.
Além disso, é nessa diferença entre os povos que muitas vezes tenta-se construir a comédia desses filmes, explorando a ignorância e o assombro dos povos nativos diante de máquinas e utensílios europeus, além de características estereotipadas de determinados povos. A partir disso, criam-se confusões que tentam capturar um lado cômico no desconhecimento e na estranheza diante da novidade. Em muitas dessas situações, no entanto, os povos nativos acabam com uma representação ruim, novamente ocupando o lugar dos seres brutos e pouco civilizados que se fascinam por qualquer coisa e, enquanto exploram essas novidades, atrapalham a jornada dos protagonistas de uma forma menos tensa.
Fruto de uma época já deixada para traz há muito tempo, não é surpreendente que essas histórias de aventura refletissem uma visão completamente dominada ideologicamente sobre o mundo. O surpreendente, no entanto, é que essas ideias continuam a existir mesmo nos dias de hoje, com filmes mais recentes de aventura ainda apresentando essa mesma visão. Algumas mudanças de fato ocorreram ao longo dos anos, mas vários filmes de aventura continuam a perpetuar esses clichês e ideias ultrapassadas e preconceituosas, mesmo que em menor escala.
OS EFEITOS ESPECIAIS: AVANÇO PRÁTICO OU SUPERFICIALIDADE INDESEJADA?
Entre as principais mudanças ocorridas no gênero de aventura, está o emprego cada vez maior de inúmeros efeitos especiais para compor as paisagens deslumbrantes, os animais perigosos e os momentos místicos que vez ou outra aparecem nessas tramas. Não que isso seja uma característica apenas do gênero de aventura. Todo o cinema se mostra cada vez mais apto ao uso de efeitos especiais. Mas os filmes de viagens aventureiras, em particular, são alguns dos que mais fazem uso desse tipo de recurso hoje em dia.
Por um lado, os efeitos especiais têm sempre a vantagem de fornecerem mais possibilidades para o filme. Quando lidamos com uma trama que abordará uma civilização perdida ou uma região que já deixou de ser coberta por selva fechada, os efeitos especiais são essenciais para a reconstrução do ambiente desejado. Efeitos especiais também são necessários para simular, por exemplo, ataques de animais selvagens sem que ninguém se fira. Sem contar na facilidade que os filmes têm de criar momentos místicos e cheios de poderes mágicos, além de monstros sobrenaturais, com o apoio desses efeitos.
Por outro lado, o uso de efeitos especiais tira um pouco da realidade que efeitos práticos tendem a proporcionar. Quando vemos um filme, sabemos com certeza o que é real, mesmo que esteja por traz de maquiagem, e o que é efeito computadorizado. E mesmo que muitos desses efeitos sejam extremamente realistas, ainda assim é fácil distinguir o que é real e o que é falso. E isso se torna ainda mais verdadeiro em cenas extremamente exageradas e épicas, onde esses efeitos tendem a se sobrepor a todo o resto. Podemos nos surpreender com o que vemos, mas no fundo sabemos que aquilo não é real.

E existe um outro fator negativo, que é o abuso de efeitos que esses filmes empregam. É compreensível que algumas cenas mais épicas necessitem de mais efeitos, mas nos últimos tempos, o desejo de transformar o filme inteiro em algo épico faz com que os estúdios empreguem efeitos em todos os lugares do filme. Por causa disso, além de alimentarem a sensação de irrealidade das cenas, as tramas acabam adquirindo um ar extremamente superficial, no qual a história é menos importante que os efeitos. Pouco importa o roteiro e o desenvolvimento de personagens quando se pode criar um animal ameaçador em computador.
O FIM DA JORNADA?

Apesar de todos esses problemas, o gênero de aventura ainda assim consegue cativar o público, tanto jovem quanto adulto. São inúmeros os longas desse gênero que se tornam grandes blockbusters e atraem pessoas de todas as idades para testemunharem a mais nova jornada rumo ao desconhecido. Talvez seja por causa desse sucesso que as mudanças sofridas pelo gênero ao longo dos anos não pareçam ser muito expressivas.
A verdade é que as aventuras acabaram se tornando um lugar-comum para muitas pessoas quando buscam algum entretenimento pelo prazer de serem entretidas. Toda a jornada, o desenvolvimento, os perigos e o desbravamento de um ambiente inóspito servem, hoje em dia, apenas como uma diversão para o público, que sai das sessões com talvez uma ou duas cenas de maior impacto na cabeça, mas sem pensar muito sobre o que acabou de assistir.
Em outros tempos, esse tipo de história carregava um ar de espanto e deslumbre diante do desconhecido. Hoje em dia, no entanto, parece que não há como esses filmes alimentarem a curiosidade por uma terra desconhecida para o público, principalmente porque não existem mais muitas terras completamente desconhecidas. E quando sabemos como a terra "inóspita" realmente é, a ficção não nos surte efeito. Em especial uma ficção que ainda se prende a estereótipos ultrapassados para a representação de povos e ambientes nativos.
Talvez ainda exista espaço para a aventura continuar a maravilhar as pessoas e encantá-las com histórias sobre locais que elas nunca visitaram. Mas é preciso que a fórmula seja alterada e os estereótipos vencidos, se as pessoas por trás dos filmes de aventuras desejarem que o gênero deixe de ser apenas um entretenimento barato para o público.