Vivemos na era da nostalgia. Já é comum para os frequentadores do cinema e usuários do streaming encontrarem cada vez mais remakes, readaptações e continuações tardias de grandes franquias do passado. A regra geral parece ser que, quando um grande filme completa 20 anos, ele automaticamente se torna um candidato para ser abusivamente explorado pelo cinema em novas produções dentro do mesmo universo, seja recontando a mesma história ou adicionando novos capítulos à narrativa já estabelecida.
O público-alvo dessas produções deveria ser claro: as pessoas que cresceram vendo os originais e são mais facilmente atraídos por esse sentimento nostálgico para revisitar a história que eles tanto adoravam quando mais jovens. Mas essas produções acabam também atraindo um novo público, que possui ideias e referências diferentes e não necessariamente conhecem as produções originais. Mesmo sem esse vínculo, contudo, diversos membros de uma nova geração ou já tiveram algum contato com as produções originais, conhecendo alguma coisa de suas histórias, ou são atraídas pelas perspectivas desses grandes universos apresentadas pelas novas produções.
No papel, seria algo estimulante. Filmes capazes de unir diferentes gerações através de um gosto comum, criando um laço que permitiria uma exploração mais frutífera e enriquecedora dessas histórias. Mas na realidade, essas produções são sempre, e por diversos motivos, alvos de polêmicas e discussões entre as pessoas, quando não são geralmente taxadas de horríveis por todos que as assistem. E, no geral, essas críticas possuem fundamento, visto que essas produções possuem o objetivo declarado de explorar um sentimento nostálgico, não se comprometendo a apresentar nada de novo, salvo alguns pequenos pontos narrativos e uma melhora nos efeitos especiais.

Esse uso constante de readaptações e remakes é fruto de um desgaste do cinema, que reflete um conflito entre a necessidade de se produzir cada vez mais filmes rentáveis e a falta de ideias inovadoras em escala suficiente para suprir essa demanda. Assim, quando não fazem parte de um gigantesco universo ou continuam uma franquia muitas vezes prolongada ao extremo, as produções blockbusters dos últimos tempos buscam reviver histórias antigas, apresentando-as a um novo público, mas tendo os fás antigos como alvo também. Mas como isso pode ser algo possível? Como unir os aspectos que fizeram os filmes antigos serem tão amados com novidades o suficiente para atrair gerações mais jovens?
Esse conflito está na base das maiores discussões a respeito dessas readaptações, com os fãs antigos sendo alguns dos principais críticos das novas produções. Nesse momento, é preciso diferenciar o que é ressentimento nostálgico e o que são críticas com fundamento. Não são poucas as pessoas que atacam esses remakes ao presenciarem a menor mudança com relação ao original, principalmente quando essa mudança se caracteriza pela inclusão ou representatividade de algum grupo minoritário. É óbvio que, em uma era onde esses debates estão extremamente acalorados e presentes, os estúdios da indústria cinematográfica vão querer explorar tais temas de qualquer maneira que lhes seja rentável. Mas é importante perceber que a inclusão social não é o problema desses filmes, e sim a forma como os estúdios exploram essa inclusão apenas como forma de marketing, sem nenhum tipo de aprofundamento nos temas.

Para além dessa questão, é preciso entender que mudanças são necessárias, mesmo nos remakes que adaptam a mesma história e trama que o original. Se o propósito é fazer tudo igual, melhor seria relançar os originais. O ponto da discussão é justamente se as mudanças trazidas pelas novas versões são suficientes para justificar toda a produção dessas histórias. E, na maioria dos casos, a resposta é negativa. Ao invés de tentarem trazer algo de novo e realmente reviverem essas histórias de uma maneira interessante, os estúdios simplesmente reciclam tudo o que podem das versões originais e, para não dizerem que os dois filmes são a mesma coisa, colocam pequenas mudanças em alguns pontos que muitas vezes nada dizem respeito à trama. E é nesse ponto que entra inclusão social na mente dos produtores: não é algo a ser aprofundado, mas sim uma pequena mudança que eles podem colocar nos filmes para diferenciá-los do original e apelar para um público mais conectado a esse tipo de discussão.
E esse é o abismo em que muitos remakes e readaptações acabam caindo. Por um lado, eles sabem da necessidade de tornar a produção atrativa para um público mais jovem, e por isso tentam abordar temas relevantes nos dias atuais. Por outro, eles sabem que gerações mais jovens não possuem a conexão forte que os mais velhos têm com os filmes originais, o que os leva a criar histórias e aspectos que sejam reconhecidos por esses fãs, de forma a atraí-los para essas novas produções. E, em algum lugar na tentativa de agradar ambos os públicos, esses filmes se perdem, atingindo apenas um deles positivamente, ou até mesmo nenhum deles.

Algumas produções específicas até conseguem ser mais chamativas, principalmente aquelas que, ao invés de se basearem em um remake total de algo já existente, pegam a história e o mundo do filme original e criam uma continuação anos depois dos eventos do original. Nesses casos, preserva-se o caráter nostálgico ao se reconhecer os feitos do original e trazendo seus personagens, agora bem mais velhos de volta. Ao mesmo tempo, introduz-se também novos personagens, em geral mais jovens, e temáticas não tratadas nos filmes anteriores e que chamam a atenção das novas gerações, introduzindo-as ao universo dessas franquias e, muitas vezes, fazendo com que eles se interessem em procurar as versões anteriores. Em vários casos, ter assistido aos filmes originais é um requisito para se entender os novos, mas é melhor quando essas produções introduzem o público ao mundo da franquia sem depender dos originais. Assim, elas permanecem como algo independente, ao mesmo tempo em que reconhecem a existência de uma aventura anterior que vale a pena ser conferida.

Mas mesmo nesses casos é preciso ter cuidado. Não é fácil introduzir novos aspectos a uma franquia antiga de forma a respeitar todos os elementos presentes no original. E quando essas novas produções começam a se multiplicar cada vez mais, esse respeito se torna cada vez mais escasso e difícil. Com o tempo, essas retomadas de franquia acabam caindo na mesma armadilha que as outras produções. Uma armadilha que deriva dessa combinação terrível entre uma necessidade enorme de venda e produção com uma escassez de novas ideias. Uma armadilha que o cinema estabeleceu contra si mesmo.

Nostalgia continua a ser o tema principal das novas produções blockbuster do cinema. E, em um mundo onde cada vez mais pessoas sentem falta daquilo que tinham no passado, esse será um tema a ser explorado por muito tempo. Isso não significa que não possam surgir coisas boas dessas produções, quando se permite que elas sejam bem pensadas e combinem de forma efetiva elementos do passado com novas características no presente. Mas, na maneira como tudo está organizado hoje em dia, essas produções não têm tempo para serem cuidadosamente pensadas e analisadas, e a nostalgia é apenas mais uma ferramenta a ser explorada e abusada com o objetivo do lucro maior.