Lançado em 1992, O Mistério de Candyman se tornou um dos filmes de terror mais reverenciados dos anos 90. Introduzindo o terror slasher em uma nova década, o filme também abordou um lado sobrenatural, trazendo um assassino lendário, um mito urbano que precisa ser invocado por uma pessoa que diga seu nome cinco vezes em frente a um espelho. Ao fazer isso, a pessoa invoca o espírito assassino e o liberta no mundo, permitindo que ele siga em sua saga de assassinatos com sua mão de gancho.
A trama do original acompanha Helen (Virginia Madsen) uma jovem pesquisadora que está desenvolvendo uma tese sobre lendas e mitos urbanos. Para isso, ela começa uma longa análise de um mito local, a história de Candyman, um assassino assombroso que assola uma comunidade pobre nos subúrbios da cidade. No meio de sua pesquisa, no entanto, Helen passa a testemunhar diversos assassinatos e acontecimentos estranhos, levando-a a pensar que a lenda pode ser mais real do que aparenta.
Estrelando Tony Todd como o notório assassino, O Mistério de Candyman popularizou um conceito de terror baseado em lendas urbanas, explorando medo das pessoas por histórias macabras contadas em reuniões com amigos e parentes e que, hoje em dia, são espalhadas com facilidade na internet. Usando de um roteiro inteligente, o filme explorou como essas lendas são criadas e como elas se espalham e se perpetuam na nossa sociedade. Sob a influência de eventos reais, a imaginação das pessoas tendem a criar elementos sobrenaturais e abordam o terror de uma forma popular, caracterizam o pensamento e a visão de mundo de um determinado lugar.

O filme também apresentou uma certa análise social, ao retratar uma parte da sociedade que é excluída do resto, vivendo em condições precárias e sofrendo com a presença de gangues e o abuso de autoridade dos policiais. Mesmo que esse lado do filme tenha sido deixado em segundo plano diante em favor do lado sobrenatural e do terror assolando a protagonista, foi uma abordagem interessante durante a primeira metade do filme, o que o diferencia e o faz se elevar a outros do gênero.
Esse aspecto social, no entanto, possui uma nova chance de ser abordado no universo do filme, já que a dupla formada pela diretora Nia DaCosta e pelo roteirista Jordan Peele planeja uma nova continuação para esse clássico dos anos 90. A Lenda de Candyman trará Yahya Abdul-Mateen II como a versão adulta de um personagem presente no primeiro filme, que retorna para sua velha residência em Chicago para investigar a lenda que foi parte tão essencial de sua infância. Com a promessa de uma mistura de análise social e terror sobrenatural, o novo filme deve introduzir o horror de Candyman a uma geração completamente nova, mas também lançar um novo olhar sobre um dos filmes mais influentes do terror dos anos 90.
O OLHAR DOS REALIZADORES
Logo de cara, o novo filme traz em sua equipe dois nomes extremamente chamativos na atualidade. Tanto sua diretora quanto seu roteirista têm se envolvido nos últimos anos com projetos com um foco muito grande em representatividade e crítica social, e seu desempenho foi tão bom que já chamou a atenção de grandes produtores e estúdios de renome.
Com uma carreira mais recente no universo cinematográfico, Nia DaCosta tem atuado como diretora e roteirista desde o começo da década de 2010, participando de algumas produções menores e dirigindo alguns curtas autorais, entre os quais se destacam Night and Day (2013), Livelihood (2014) e Celeste (2014). Ela também possui alguns títulos entre séries de TV, como Ghost Tape (2020 - ), além de ser a diretora de The Marvels (2022), produção do universo Marvel que deve unir Capitã Marvel, Fóton e introduzir a icônica Ms. Marvel. A Lenda de Candyman, contudo, será a primeira grande estreia da diretora no cinema, que deve imprimir na produção um olhar interessante sobre o terror baseado no sobrenatural e nos traumas de seu protagonista.

Jordan Peele, por outro lado, já é um nome mais conhecido no gênero de terror com protagonismo negro. Embora seja muito conhecido como um ator de comédias e tenha passado boa parte de sua carreira trabalhando nesse gênero, Peele surpreendeu o mundo nos últimos anos com suas produções de terror, que ainda assim possuem um elemento cômico e que trazem em si uma crítica social bastante contundente sobre o racismo e suas diversas formas na sociedade.

Seu primeiro grande sucesso nesse gênero foi Corra! (2017), estrelando Daniel Kaluuya como um rapaz negro que vai visitar a família de sua namorada branca, apenas para se encontrar em meio a um estranho culto de pessoas que invadem o corpo de jovens negros para prolongar suas vidas. Logo em seguida, Peele também dirigiu Nós (2019), que acompanha uma família de férias na praia que descobre um grupo de sósias que planejam matá-los e tomar os seus lugares no mundo. Ambos os filmes foram grandes sucessos e consagraram o diretor e roteirista na atualidade. Para além disso, no entanto, Peele também foi roteirista e co-criador do remake de Além da Imaginação e tem em A Lenda de Candyman o seu mais recente trabalho como roteirista.

Juntando o trabalho de Nia DaCosta e Jordan Peele, Candyman tem a grande possibilidade de se tornar um marco do gênero de terror na atualidade. Uma revisita a um clássico dos Anos 90 com um olhar mais voltado para as questões atuais e capaz de abordar aspectos mais profundamente e de maneiras diferentes do original.
EXPLORANDO CANDYMAN: ASSOMBRAÇÃO E O LADO SOCIAL
O Mistério de Candyman é um filme que perdura na mente dos fãs de terror por sua capacidade de abordar diversos temas e de propor várias reflexões para o seu público. Já falamos sobre como a narrativa introduz a origem e a perpetuação de lendas urbanas, mas a forma como Candyman é construído nesse sentido torna o filme muito mais rico e profundo do que se vê em vários slashers dos anos 80 e 90.
O primeiro ponto importante é a antiguidade da história. Segundo um dos personagens, Candyman teria existido nas primeiras décadas após a abolição de escravidão, e seria um injustiçado. Homem negro e amante de uma senhora branca, ele foi perseguido pelos senhores rurais da época após sua amada ficar grávida dele. Os senhores de terra brancos o encontram e decepam sua mão logo antes de lançarem milhares de abelhas em seu corpo, levando-o à morte. Por conta disso, Candyman figura como um injustiçado, e sua lenda se inicia justamente como uma busca de vingança pelo ocorrido.

O segundo ponto interessante do personagem é justamente a sua existência como lenda, principalmente na comunidade que ele assola. Dominada pelas gangues e pelo crime, a comunidade tornou-se um lugar extremamente violento ao longo dos anos, fazendo com que seus moradores se tornem extremamente ariscos e suspeitos de estranhos. E, como é comum em qualquer comunidade isolada, as histórias locais ganham proporções cada vez maiores e são reconhecidas por todos os moradores, sendo por isso perpetuadas através das gerações.
Soma-se a isso o uso que vários criminosos locais fazem da figura de Candyman, e temos uma lenda que sobrevive através do medo, da superstição e do crime. Candyman é, assim, uma figura que se alimenta desse medo e que precisa da crença das pessoas para existir. Quando um assassino faz uso de seu nome para proteger sua identidade enquanto ele comete crimes, a assombração antiga ganha força entre as pessoas do local.
Na primeira metade de O Mistério de Candyman, todos esses aspectos são introduzidos de forma bastante profunda, dando ao personagem uma história e um caráter muito mais interessantes do que a maioria dos vilões de slashers. O assassino interpretado por Todd não chega a de fato aparecer no filme até a sua metade, quando a trama deixa um pouco de lado esses aspectos investigativo e social e toma ares de um slasher mais tradicional. Mas mesmo que o filme abandone esse lado em troca de um terror mais comum em seu final, tais aspectos sociais foram devidamente plantados para serem explorados ao longo da franquia.

E é nesse ponto em que analisamos o papel de DaCosta e Peele na reintrodução desse mito no cinema atual. A ideia de reviver um slasher apresenta inúmeros riscos no cinema, dado as diversas tentativas fracassadas de ressurreição de franquias ao longo dos últimos anos. Mas Candyman se destaca justamente por todo o conteúdo que traz associado ao seu personagem, e tanto a diretora quanto o roteirista são nomes perfeitos para explorar esse lado da lenda. Com uma carreira já muito marcada por filmes de terror que envolvem questões sociais profundas, Peele e DaCosta podem explorar com enorme intensidade o lado do personagem associado à sua presença em uma comunidade periférica e esquecida e a forma como os acontecimentos que marcaram essa comunidade servem para manter a lenda viva ao longo de anos.
Candyman sempre trouxe consigo esse lado voltado para as questões sociais. Nas mãos dos seus realizadores, A Lenda de Candyman pode servir não só para reviver a franquia, mas também para torná-la mais relevante aos olhos do público através da exploração mais profunda de um aspecto já bastante presente na história do icônico personagem.