Por muito tempo, o romance de ficção científica de Frank Herbert, "Duna", foi chamado de "o romance inadaptável" diante da enorme dificuldade dos cineastas em adaptar sua história para as grandes telas. E existem muitas provas para favorecer essa ideia, como o fato de que a adaptação de Alejandro Jodorowsky nunca ter sido finalizada, ou o fato de que a adaptação existente feita por David Lynch fez pouco sucesso e recebeu críticas pesadas. Aparentemente, porém, a nova versão da história, dirigida por Denis Villeneuve, veio para quebrar esse tabu do romance e possibilitar de vez sua passagem para as telas do cinema.
O universo de Duna explora um futuro distante, onde um poderoso Imperium se instalou na galáxia e no qual diversas famílias lutam por influência e poder comercial e militar. No centro dessa disputa, estão as famílias Atreides e Harkonnen, entre as quais se dá a disputa pelo controle do planeta Arrakis, de onde é extraída uma especiaria importante para o desenvolvimento do Império. Enquanto a disputa se dá entre as famílias, Paul Atreides (Timothee Chalamet), um jovem com grandes habilidades ainda incompreendidas, acompanha seu pai, Leto (Oscar Isaacs) quando esse é feito governador de Arrakis. Entretanto, o jovem logo se vê em meio a uma conspiração para destruir sua família e é forçado a buscar o apoio dos habitantes locais para se proteger dos planos do Barão Harkonnen (Stellan Skarsgard).

O romance de Frank Herbert sempre foi visto como um dos mais complexos da ficção científica, abordando diversos temas de política, religião e filosofia ao longo de suas mais de 600 páginas. A nova adaptação certamente bebe dessa complexidade, mergulhando profundamente no intrincado mundo de seus personagens, em suas necessidades políticas e na intensa rivalidade entre as famílias. Por um lado, isso é uma maneira excelente de fazer com que o público entende perfeitamente os aspectos importantes da trama, e a forma como o roteiro conduz suas explicações permite que tudo possa ser revelado de uma forma que não atrapalha o ritmo da narrativa nem soe extremamente cansativo. Misturando informações mostradas com outras explicadas pelo personagem, o filme garante a naturalidade de suas exposições e as concede ao público ao longo da narrativa ao invés de jogar tudo na nossa cara de uma vez.

Essa exposição também auxilia no desenvolvimento dos arcos e motivações dos personagens. Conforme vamos entendo o intrincado sistema do Império, desde sua organização política até a presença de entidades religiosas poderosíssimas, como as Bene Gesserit, vamos também compreendendo o papel de cada um dos integrantes da família e sua importância no desenrolar da trama. Com grande habilidade narrativa, o filme nos revela o poder de Paul sobre a Voz, uma habilidade de controle que as Bene Gesserit guardam para si, e suas responsabilidades como herdeiro dos Atreides. Enquanto isso, ficamos sabendo, através de Jessica (Rebecca Ferguson) sobre a enorme influência das Bene Gesserit no Império e fora dele, manipulando as crenças do povo para fazê-los crer na vinda de um poderoso messias. Já a trama de Leto nos mostra não só as relações entre as famílias, mas também a habilidade diplomática necessária para lidar com os habitantes de Arrakis, os fremen, e conduzir a extração da especiaria.


Denis Villeneuve não poupa esforços visuais para fazer seu filme se tornar uma grande obra-prima. Como é comum nos filmes do diretor, Duna possui uma fotografia maravilhosa e que explora as magníficas cores do planeta e o vasto mar de areia para proporcionar paisagens irreais de tão belas e enquadramentos dignos de pintura. Para além disso, o filme faz um uso incrível de efeitos especiais. Tudo, desde o maquinário de extração e as naves espaciais até os colossais e ameaçadores vermes da areia é feito com maestria, concedendo um show visual que, felizmente, não se perde em seu próprio espetáculo e preserva a fluidez e a compreensão da narrativa.

Mas diante de uma história tão complexa e que é tratada pelo diretor com igual complexidade, o filme acaba sendo vítima exatamente daquilo que o faz especial. Com todas as informações que o filme proporciona, mesmo com a organização do roteiro, ainda assim é perceptível uma grande sobrecarga mental por parte do público. Com a enorme riqueza desse universo, às vezes fica difícil acompanhar todos os aspectos e características dos diferentes povos e famílias e de todas as questões políticas, religiosas, econômicas e diplomáticas do Imperium. Chega um ponto em que todo esse acúmulo pesa para o espectador, e o filme se torna muito mais denso e demorado do que de fato é. E essa sensação de peso só piora pelo fato de que o filme é extremamente longo, com mais de 2h30 de duração.
Denis Villeneuve é um mestre da fotografia e consegue construir uma grande história com um ritmo mais lento, muitas vezes pagando o preço de que seus filmes deixem de ser os blockbusters que seus produtores e espectadores poderiam esperar. Não é algo ruim, e sacrificar esse lado popular para propiciar uma riqueza e uma reflexão maior em sua obra é algo a ser reconhecido. Ainda assim, Duna não é um filme que muitas pessoas conseguirão assistir sem se sentirem extremamente cansadas no final.
Mas talvez o principal aspecto negativo dessas questões é que, mesmo com sua longa duração, sua complexidade narrativa e sua exploração mais lenta da história, Duna ainda assim é uma obra incompleta. Isso porque o filme de Villeneuve cobre apenas dois terços do livro de Herbert, deixando sua parte final para uma segunda produção a ser lançada no futuro. Uma estratégia muito usada nos últimos anos, essa divisão de filmes em duas partes é irritante e deixa o público com uma sensação de que algo faltou. Não é algo que destrua completamente o filme, mas é decepcionante para o público saber que, após o cansaço passado durante todo esse filme, ele ainda terá que passar por tudo de novo em uma segunda parte ainda por ser lançada se quiser saber como a história irá se encerrar. Isso também faz com que muitos personagens tenham sua importância na trama adiada, como é o caso de Chani (Zendaya), que aparece ao longo de todo o filme em visões de Paul e se mostra como uma personagem importante para a trama, mas que não desempenha seu papel de destaque nesse filme, sendo reservada para a continuação.

No geral, Duna tem muitos mais acertos do que erros. Seu ritmo é certamente difícil, um sacrifício feito conscientemente pela equipe e pelo diretor para explorar a fundo a riqueza de detalhes desse universo. E, no que diz respeito à construção de seu universo, personagens e narrativa, pode-se dizer que essa é finalmente uma adaptação digna do livro de Frank Herbert. Só nos resta esperar para ver como ela será encerrada.
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