Após realizar uma pesquisa social em uma igreja de negros, Bob Zellner (Lucas Till) é punido por sua faculdade em Montgomery, Alabama. Devido a esse incidente, ele passa a se interessar mais pelo movimento negro, o que o leva a se voluntariar no Comitê de Coordenação Não-Violenta dos Estudantes (SNCC), e se engajar na luta por direitos iguais dos Anos 60.
Produzido por Spike Lee, Filhos do Ódio carrega em si uma forte mensagem sobre o movimento negro e sua importância nos Estados Unidos, tanto na época retratada quanto nos dias atuais. Em uma decisão atípica, o filme aborda esse movimento de uma forma inusitada, colocando o protagonismo em um rapaz branco e narrando a sua jornada para sair de seu lar dominado pela visão racista de seu avô (Brian Dennehy), membro da Ku Klux Klan, e se engajar na luta pelos direitos negros. Essa decisão poderia ser uma faca de dois gumes. Por um lado, Bob Zellner foi um importante líder do SNCC e liderou alguns dos mais importantes movimentos da época. Por outro, são inúmeros os exemplos de filmes que tentaram narrar a jornada de um branco para abdicar de sua visão racista e participar da luta ao lado dos negros e falharam por serem extremamente rasos em sua mensagem (Green Book sendo um bom exemplo recente).

Filhos do Ódio consegue fugir um pouco dessa situação por escolher muito bem a história que vai contar e como vai contar. Apesar do protagonismo de Till, a luta e o sofrimento dos negros são mostrados através dos personagens negros e pertencem a eles. De certa forma, apesar de ser o protagonista do filme, Zellner é tratado como um coadjuvante nos acontecimentos retratados, aparecendo como alguém que tem que aprender sobre toda a situação e que não aparece como nada além de um acompanhante dos membros do movimento. Através dessa escolha, o filme evita retratar Zellner como um líder e o mostra como um rapaz que quer lutar, mas que não entende nada sobre a causa e precisa aprendê-la antes de fazer uma diferença efetiva.
Nessa proposta, a narrativa o acompanha enquanto ele aprende ao lado dos líderes do SNCC, entre os quais se destacam Joanne (Lex Scott Davis), Chuck McDew (Onye Eme-Akwari) e Reggie (Shamier Anderson). Todos o estranham em um primeiro momento, mas se dedicam a educá-lo, fazendo com que Zellner vá aos poucos amadurecendo e percebendo a real importância daquela luta, abraçando-a com muito mais entusiasmo sem nunca, durante a trama, assumir a posição de líder.

O filme também faz um retrato bastante visceral do Sul dos Estados Unidos na década de 60, retratando a violência que negros sofriam, seja o ataque de uma multidão contra alguns poucos manifestantes ou o assassinato de negros que simplesmente desejavam o direito de votar, até a presença de policiais em reuniões e igrejas negras e a repreensão física e psicológica de qualquer jovem que tentasse se envolver com o movimento, fosse ele branco ou negro.
No entanto, Filhos do Ódio ainda peca por se prender muito à fórmula típica de um filme biográfico, sem apresentar grandes reviravoltas ou mesmo um estilo de narrativa novo para sua história. Sua mensagem sobre como pessoas que não pertencem aos grupos minoritários podem participar dos movimentos sociais é bastante importância, mas ainda assim não é tão aprofundada a ponto de fornecer uma reflexão e um debate prolongados. No fim, o filme que foi produzido por um dos diretores mais revolucionários da atualidade pecou justamente por não apresentar uma trama realmente revolucionária. É uma história provocativa, mas não a ponto de permanecer muito tempo nas mentes do público após o fim da sessão.

Para os interessados, Filhos do Ódio estreia no dia 25 de julho e estará disponível em VOD nas plataformas digitais como Claro Now, Vivo Play, Sky Play, ITune/Apple TV, Google Play e YouTube Filmes. Confira!