Há mais ou menos cinco anos atrás, o Universo Cinematográfico da DC Comics lançava um de seus filmes mais aguardados. Esquadrão Suicida trazia grande potencial, principalmente pelo fato de que, por pertencer a um universo mais sombrio, o filme poderia trazer uma abordagem mais séria, macabra e violenta de seus personagens. Sendo ex-vilões e psicopatas, os membros do Esquadrão poderiam trazer uma aventura bastante inovadora, que explorasse de forma inédita as diferenças entre bem e mal e o que acontece quando um vilão é forçado a agir como um herói.
No papel, Esquadrão Suicida tinha tudo para dar certo, e todo o seu marketing apontava para um grande filme. Por isso, foi um grande choque quando tanto a crítica quanto as reações do público se mostraram decepcionadas com o resultado. Cinco anos depois, analisando a maneira como o estúdio interferiu na produção do filme, e diante do lançamento do novo filme da equipe, agora dirigido por James Gunn, analisamos os principais pontos que transformaram essa grande promessa do Universo DC em um de seus filmes mais insatisfatórios.
O TOM INCONSISTENTE COM OS PERSONAGENS E A HISTÓRIA
Nos primeiros trailers lançados para Esquadrão Suicida, o público se entusiasmou com a maneira sombria com que os personagens eram tratados. A ideia de uma abordagem mais séria parecia perfeita para explorar o pior lado desses vilões convertidos em "heróis" pelo governo. Não só isso, mas uma abordagem mais tensa seria ideal também para mostrar o lado psicológico de seus personagens e, acima de tudo, construir grandes personagens que não obedecem regras e executam missões à sua própria maneira doentia e sanguinária.

E então, mais cedo naquele ano, Deadpool foi lançado, trazendo uma trama que abusava do humor adulto e que fez um enorme sucesso ao introduzir um herói irreverente e extremamente problemático e usá-lo para o humor. Vendo o enorme sucesso de sua rival, a DC decidiu fazer mudanças em Esquadrão Suicida, para tentar se aproximar do tom cômico que o público parecia tanto adorar. Mas o que deu certo com Deadpool, certamente deu muito errado para essa produção.
Em primeiro lugar, Deadpool é um herói irreverente até mesmo nos quadrinhos, e seu humor adulto e quebra de quarta parede são consistentes com o personagem. A forma como o Esquadrão foi abordado comicamente completamente destruiu a caracterização de seus personagens. Assim, membros da equipe que teriam uma história bastante sombria e dramática a ser explorada, como o Pistoleiro (Will Smith) e El Diablo (Jay Hernandez), acabaram não sendo aprofundados o suficiente, e a parte dramática de seus arcos foi drasticamente reduzida para abrir espaço para momentos cômicos inconvenientes e fora de suas caracterizações.

O mesmo pode ser dito sobre os personagens mais insanos e sádicos, como Killer Croc (Adewale Akinnuoye-Agbaje) e Capitão Bumerangue (Jai Courtney), que poderiam ser ótimos para uma exploração maior da violência e de questões psicológicas mais aprofundadas, ou mesmo serem utilizados como escapes para um humor mais sério e sombrio. Ao invés disso, eles foram reduzidos a alívios cômicos bobos, sem maiores explorações de seus personagens além da ocasional piada clichê sobre indivíduos loucos.

Em segundo lugar, ao alterar seu gênero para a comédia, Esquadrão Suicida abdicou, sem qualquer motivo, da seriedade que seus personagens poderiam trazer. estamos falando de uma equipe de vilões, que literalmente é enviada para uma missão suicida e que não têm escrúpulos e fazem o que eles querem fazer. Havia muito potencial para explorar o lado vilanesco desses personagens, e mesmo a violência que eles poderiam trazer, inclusive de um modo mais cômico. Mas, ao invés disso, a DC optou por um filme com uma comédia mais leve, semelhante à usada pela Marvel, e deixou de lado qualquer traço de violência que seus personagens poderiam trazer. As mortes do filme se tornaram cartunescas e qualquer semelhança a um abalo psicológico dos membros da equipe foi completamente deixado de lado.
Esse fato fica ainda pior quando esses problemas de tom passam a afetar a trama como um todo. O filme parece não se decidir entre ser sério e sombrio e ser uma comédia estilo Marvel. Como resultado, cenas de combate que poderiam resultar em alguma tensão são resolvidas de maneira simples, enquanto que momentos sem muita importância recebem muito mais foco e profundidade do que deveriam. Para além disso, a trama nunca oferece um motivo de união da equipe ou algo que os faça desenvolver um laço entre si. Eles simplesmente permanecem juntos por conveniência até perceberem que a vilã principal é um problema para eles também e, então, todos decidem se tornarem heróis e salvarem o mundo para provarem que são mais que vilões e perdedores.
ALGUNS PERSONAGENS NÃO SÃO NADA IMPORTANTES
Ainda falando dos personagens, é impressionante como uma equipe tão grande de personagens conseguiu se restringir a apenas dois ou três personagens realmente importantes ao longo do filme. O restante dos membros do Esquadrão são personagens que causam uma boa primeira impressão e imediatamente são jogados para o papel de figurantes, e nunca têm uma verdadeira relevância na história.
Com um elenco de peso, que incluía Will Smith, Margot Robbie e Viola Davis, era claro que o filme iria tentar explorar mais a fundo os personagens desses atores maiores. Mas existem maneira de fazer isso sem colocar todos os outros personagens em uma posição esquecível. Já citamos aqui os exemplos de Killer Croc e Bumerangue, que não adicionam nada ao filme além do ocasional alívio cômico, e El Diablo, embora acabe tendo uma importância final bastante marcante, passa a maior parte do filme reduzido a um papel sem muita expressão, no qual todo o seu drama pessoal é completamente relegado a uma reles história de origem cujas consequências nunca são totalmente abordadas e exploradas.
Mas estes não são nem a pior parte. Pois existem personagens que trouxeram consigo um enorme potencial, apenas para serem ignorados pelo filme e tratados como completos coadjuvantes. Katana (Karen Fukuhara) é o melhor exemplo disso: Em sua introdução, ela é tratada como uma grande guerreira aliada de Rick Flag (Joel Kinnaman), cuja espada amaldiçoada promete trazer algo extremamente único à equipe. Contudo, logo após sua introdução, ela se torna uma coadjuvante que mal possui falas no filme e que não realiza nada de especial ao longo de toda a trama.

Outro exemplo é Slipknot (Adam Beach), introduzido na equipe como um mestre das escapadas, mas que só serve no filme para mostrar que Amanda Waller (Viola Davis) e Rick Flag falam a verdade quando dizem terem colocados dispositivos explosivos na cabeça dos membros da equipe. E sua morte não é nem bem planejada, como se ele tivesse conseguido enganar Flag e fugido por um tempo, apenas para ter sua cabeça explodida quando enfim é descoberto. Sua tentativa de fuga é ridícula e sua morte se torna ainda pior pelo fato de que quase ninguém se lembra desse personagem no filme, de tão insignificante.
O resumo básico sobre Esquadrão Suicida é um filme com vários personagens cheios de potencial, mas que são mal aproveitados e não nem a metade do que prometem, sendo sacrificados para momentos de alívio cômico e tramas sem sentido dentro do filme. Mesmo os personagens de Will Smith e Margot Robbie, que recebem mais atenção e destaque, não entregam tudo o que são capazes por causa da confusão e incongruência do roteiro. Só podemos esperar que James Gunn não cometa o mesmo erro com sua nova versão, visto que este novo longa trará um número absurdamente maior de personagens para serem explorados.

A PIADA SEM GRAÇA
Talvez o maior exemplo de mau aproveitamento de personagens em Esquadrão Suicida seja o Coringa de Jared Leto. Mesmo que seu visual não seja dos melhores, o Coringa de Leto mostrou-se promissor nos primeiros trailers do filme, trazendo um lado bastante enlouquecido e sádico para o personagem. Soma-se a isso a própria expectativa que o personagem traz, pois sendo o Coringa, era de se imaginar que ele teria alguma grande importância no filme.
Mas a cruel realidade é que o Coringa não foi nada além de uma jogada de marketing, um personagem mais conhecido da DC para ser jogado nos trailers e atrair o público. Como resultado, suas cenas são extremamente curtas e sua presença no filme como um todo é pouco importante. O Coringa não chega, de fato, a influenciar em absolutamente nada a história principal, sendo apenas um empecilho momentâneo que afeta a Arlequina em um ou outro momento.
Mas para além do fato de o Coringa não ser um personagem importante da história, a sua participação também acaba sendo nociva ao filme. Primeiro porque, sendo o Coringa, esperamos dele alguma presença realmente marcante e uma influência direta na história, o que não aconteceu. Mas também porque a própria atuação de Jared Leto pareceu estranha ao personagem, hora deixando de lado seus traços mais insanos, hora apresentando-os em momentos inoportunos e dando ao personagem um tom extremamente caricato. O filme também dá a ideia de que o Coringa seria alguém que se preocuparia com a Arlequina, a ponto de tentar a todo o momento salvá-la das garras de Waller, contrariando completamente a construção do personagem dentro do Universo DC.
Jared Leto não é nem de longe o pior aspecto de Esquadrão Suicida. Mesmo que sua atuação e interpretação do personagem não seja das melhores, o principal problema é o fato de que um personagem tão icônico não tenha influência alguma na trama do filme. Pode-se remover completamente o Coringa da história e ela quase não será alterada, o que alimenta mais a ideia de que o personagem só está lá para ser um chamariz de marketing. É o desperdício de oportunidades somado ao mau uso e à péssima caracterização do personagem.
UMA HISTÓRIA CONFUSA E CANSATIVA, PRA DIZER O MÍNIMO
E então chegamos ao principal problema de Esquadrão Suicida: a sua história. Isso porque, quando ela não se torna completamente confusa, é extremamente cansativa e fica explicando todos os seus aspectos para o público. A introdução do filme é literalmente uma longa discussão entre Amanda Waller e membros do governo, na qual todos os membros do Esquadrão são explicados um a um. Nesse processo, entretanto, não interagimos com os personagens em questão, mas recebemos uma aula sobre quem eles são, o que torna nossa primeira impressão sobre eles bastante prejudicada.
Não bastasse isso, o filme realiza a mesma explicação desnecessária sobre cada um de seus principais aspectos, impedindo a história de fluir de uma maneira natural e que construa a relação entre seus personagens. Basta retomar o exemplo já citado da morte de Slipknot. Todo o mecanismo dos explosivos na cabeça já havia sido explicado por Rick Flag antes, mas eles ainda assim mantêm a cena patética apenas para mostrar algo que já fora explicado, dando ao personagem de Flag a oportunidade de explicar tudo mais uma vez.
E mesmo com essa dose extrema de explicações cansativas, o filme ainda assim deixa diversos aspectos em aberto e sem exposição suficiente, de forma que o público se vê, muitas vezes, confuso sobre o que está acontecendo. Não sabemos muito bem o que a vilã, Magia (Cara Delevingne) está realmente fazendo com todos, qual a extensão de seus poderes, qual o seu grande objetivo, o que nos faz apenas acompanhar o Esquadrão em sua missão enquanto eles casualmente ajudam a salvar o mundo contra uma ameaça que mal compreendemos.

Basicamente, por tentarem desesperadamente se igualar à produção de sua rival, os produtores da DC se esqueceram de construir um filme que fizesse sentido por completo e que apresentasse sua história de uma forma orgânica e progressiva e que não traísse a construção de seus personagens. E é esse o principal desafio que o novo filme de James Gunn tem de superar: apresentar uma história concisa e que faça sentido para seus personagens.
Nesse cenário, Gunn tem duas opções: ou constrói uma nova história de anti-heróis e abraça a fórmula já estabelecida para esse tipo de filme, dando à trama um ar mais sombrio; ou abraça a comédia e incorpora o caos derivado do Esquadrão, deixando espaço para a violência e o humor adulto que a equipe precisa.
Seja qual for a saída, é possível dizer que superar o primeiro filme não será algo muito difícil.