Em coletiva especial, o elenco principal, o diretor e o roteirista da nova minissérie da HBO, O Hóspede Americano, debateram sobre o processo de produção e os temas tratados na narrativa. A série irá contar a história da viagem feita pelo ex-presidente americano Theodore Roosevelt pela Amazônia para descobrir e desbravar o Rio das Dúvidas, conhecido como um dos últimos rios inexplorados do mundo. Ao seu lado, estarão seu filho Kermit e o coronel brasileiro Cândido Rondon (Chico Diaz), com o qual Theodore desenvolverá uma conturbada, mas profunda relação.
Estavam presentes no debate o diretor da minissérie, o brasileiro Bruno Barreto, o roteirista Matthew Chapman, os atores Aidan Quinn (Theodore Roosevelt), Chris Mason (Kermit Roosevelt) e a atriz Dana Delany (Edith Roosevelt). Juntos, eles relembraram alguns dos momentos mais difíceis da produção, as grandes conquistas obtidas e também refletiram sobre o peso da discussão do tema ambiental nos dias atuais.
RELAÇÃO COM OS PERSONAGENS
Um dos primeiros pontos levantados foi o interesse dos envolvidos por contar essa história em particular. Para Bruno Barreto, diretor da minissérie, tanto Roosevelt quanto Rondon são grandes personagens, que trazem entre si um debate bastante complexo de opiniões e vidas diferentes. "Em um mundo extremamente polarizado hoje em dia, a complexidade deles soa como um grande respiro", comentou o diretor. Também foi explicada a escolha por contar a história sob o ponto de vista do personagem estadunidense, que nesse cenário atua como o "peixe fora d'água", estando em um ambiente desconhecido e precisando da ajuda dos locais para vivenciar essa jornada.

O ator Aidan Quinn também teceu comentários a respeito de seu personagem, elogiando a construção de Roosevelt na série e afirmando que o papel é foi um de seus maiores desafios. "Quando li o roteiro, eu pensei que esta seria a coisa mais difícil que eu já fiz, e também que eu precisava fazê-la". Para ele, o fator mais impressionante do personagem era o seu amor pela natureza, a sua disposição para enfrentar problemas. "Teddy foi de um asmático rico a um homem que realmente acredita no que pensa. Ele amava seus confortos, mas nunca deixou de enfrentar suas lutas".
Outro ponto comentado sobre a série é a relação entre Theodore e seu filho Kermit, vivido por Chris Mason, que o acompanha em sua jornada pela Amazônia. Para Mason, a relação entre pai e filho é muito interessante entre os dois personagens pois a viagem representa uma chance para ambos melhorarem sua relação, mas ocorre em um momento em que Kermit já passa a enfrentar seus próprios problemas, como depressão e um princípio de alcoolismo.
Já Dana comentou a respeito de seu papel como Edith Roosevelt e da importância do seu relacionamento com Teddy, no que ela considerou uma história de amor que poucos ouviram. "Ela era uma pessoa extremamente ativa, modesta e educada, e compreendia Teddy e sua necessidade de aventura", afirmou a atriz, que também disse ter baseado sua construção da personagem em um livro escrito por Sylvia Morris sobre Edith e seus feitos. "Ela construiu a Ala Oeste da Casa Branca como a conhecemos. É uma personagem maravilhosa de se conhecer".
Nenhum dos três atores presentes afirmou ter algum conhecimento sobre o Coronel Rondon antes da minissérie, mas Dana comentou a respeito de seus contatos anteriores com o Brasil e com o ator Chico Diaz, a quem ela conheceu durante as gravações de Where the River Runs Black, em 1986.

DIFICULDADES TÉCNICAS
Para a equipe, a maior dificuldade da produção foi recriar a época em que a narrativa ocorre e adaptá-la aos dias atuais. "Li muito sobre aquele tempo, e descobri que os modos dos americanos eram bem mais semelhantes aos dos ingleses do que hoje em dia", afirmou Matthew Chapman, roteirista da série e que se tornou responsável pela adaptação da linguagem e dos hábitos daquele período para a produção televisiva.
"Matthew encontrou um belo equilíbrio entre a linguagem da época e algo que seja compreensível nos dias atuais", afirmou Bruno, que também afirmou que uma das maiores dificuldades foi essa adaptação do período aos dias atuais sem que tudo soasse descaracterizado. Ele também disse que o trabalho do roteiro deu ao elenco uma linguagem coloquial e acessível com a qual trabalhar, o que foi perfeito para ele por evitar que a obra se tornasse "algo shakespeariano no mal sentido".
Já o elenco lembrou também da enorme dificuldade que foi a filmagem de diversas cenas na floresta, em especial as cenas no rio. Aidan e Chris ambos se lembraram de alguns momentos em que ocorreram problemas técnicos com os barcos utilizados, resultando em algumas cenas muito assustadores para ambos.

Também foi comentado como o processo de exaustão da equipe afetou a produção em estágios mais avançados. "Eu lembro que estávamos já em São Paulo, havíamos acabado as cenas na floresta, e foi justamente aí que a exaustão começou a tomar conta", afirmou Aidan. De acordo com ele e com Bruno, os momentos passados na Amazônia resultaram em um processo de filmagem que cobria quatro ou cinco páginas por dia, e que quando eles retornaram para São Paulo, o mesmo processo levava à filmagem de até dez páginas por dia, exaurindo o elenco.
O dialeto português também foi um desafio, tanto para compreender quanto para reproduzir. "Minhas cenas eram todas em São Paulo, então meu maior desafio foi realmente o dialeto", afirmou Dana.
O IMPACTO DA MINISSÉRIE
"As coisas estão trágicas hoje em dia. Após tantos anos, as pessoas estão questionando ideias estabelecidas há séculos."
Após as considerações sobre a produção, equipe e elenco debateram sobre a importância de se tratar este tema nos dias atuais, e qual a mensagem que todos esperam ser transmitida ao público pela narrativa.
Um dos principais pontos em que todos concordaram foi a respeito da questão ambiental abordada na série. Matthew Chapman falou muito sobre sua esperança de que a razão e a ciência prevaleçam nesse debate, e que a produção ajude nesse sentido, mas reconhece que "as coisas estão trágicas hoje em dia. Após tantos anos, as pessoas estão questionando ideias estabelecidas há séculos". Para ele, suas maiores esperanças são que a minissérie possa, pelo menos, mostrar ao público a beleza do que está sendo devastado, levando-os a lutar pela sua preservação.
Aidan também reconheceu as dificuldades do debate ambiental nos dias de hoje, comparando a situação da Amazônia com a questão dos incêndios ambientais na Califórnia, mas trouxe um olhar um pouco mais esperançoso para a mudança de comportamento das pessoas. "Há esperança de mudança. Pessoas que anos atrás riam das mudanças ambientais agora estão vendo seus efeitos, e lutando para combatê-los."
Outro impacto que a minissérie pode abordar e que foi trazido pela equipe é a questão de aproximação das pessoas. Chris Mason falou bastante sobre como o trabalho na minissérie o fez se aproximar muito mais do Brasil, tanto pela necessidade de aprender português para o papel quanto pelo contato multicultural e espera que a produção gere uma certa aproximação entre Estados Unidos e Brasil. Dana também apontou esse lado, afirmando como a história da relação entre Roosevelt e Rondon pode servir para mostrar o quão próximos pessoas de diferentes países realmente estão, especialmente nos dias atuais. "Uma coisa que tiramos dessa pandemia é que estamos conectados, e precisamos agir em prol dos outros", completou.

O diretor Bruno Barreto concordou com essas esperanças, mas assumiu uma visão mais pessimista sobre o efeito que a minissérie teria e, novamente, voltou a citar a questão da polarização como um problema atual. "Vivemos em um tempo em que a polarização deixou as pessoas surdas. Elas não ouvem o que não querem", explicou.
Se ele está certo ou não, o fato é que todos esses aspectos e discussões serão cuidadosamente explorados em O Hóspede Americano, que estreia nesse domingo, dia 26, na HBO Max. Confirao trailer!