O subgênero Slasher é um dos mais populares do terror desde os anos 70. Com uma premissa bastante básica, na qual um grupo de jovens, em geral no meio de uma viagem para algum lugar isolado, acabam sendo vítimas de um assassino com um facão/machado/serra elétrica/bastão, o estilo fez sucesso por anos por apresentar, em geral, uma ideia mais próxima da realidade. Demônios, fantasmas, alienígenas e lobisomens podem ser assustadores, mas no fim ainda são criaturas da ficção, para os quais não há comprovação de existência real no mundo. Assassinos, no entanto, são bem mais críveis, e mesmo que muitos filmes criem exageros e situações ridículas com seus seres imortais, ainda assim eles são mais próximos de algo real para nós do que outras criaturas do terror.
A evolução do Slasher ao longo dos anos se deu por um uso muito mais frequente da violência e do gore e pela maior "criatividade" com a qual os assassinos se desfaziam de suas vítimas. A fórmula desse gênero, contudo, permaneceu muito semelhante ao que sempre foi, tornando novos longas previsíveis e fazendo com que os Slasher acabassem se sustentando muito mais em suas franquias clássicas e vilões já bastante estabelecidos.

A nova trilogia da Netflix, Rua do Medo, baseada nos romances escritos por R. L. Stine, sofre bastante dessa questão. Sua trama é até interessante, mas se prende a muitos clichês do Slasher, ao menos no que diz respeito à forma como seus assassinos agem e ao comportamento de seus protagonistas. Mas isso faz com que a trilogia seja um fracasso por completo, apenas mais um filme de um gênero já desgastado demais?
Primeiramente, é preciso dizer que Rua do Medo não é apenas uma trilogia Slasher, mas que mistura também traços de sobrenatural, colocando uma poderosa maldição sobre os moradores da cidade onde as ações acontecem. Uma maldição que já perdura por séculos. Isso por si só cria uma ideia nova para o filme. Não se trata apenas de um assassino, que constantemente retorna, mas de uma assombração que, de tempos em tempo, faz surgir um novo assassino na cidade, criando uma certa diversidade no visual dos monstros, seus modos de agir, suas histórias e mesmo suas personalidades. Além disso, o lado sobrenatural da história, que envolve histórias de bruxaria e pactos com o Diabo, cria uma ameaça muito maior, que não só continua a influenciar pessoas diferentes a se tornarem assassinas, mas que também é capaz de reviver os antigos assassinos quando se sente ameaçada.

Então, o lado sobrenatural com certeza dá a essa trilogia uma nova exploração do gênero Slasher. Não uma que seja completamente inovadora, no entanto, já que as franquias clássicas, como A Hora do Pesadelo e Sexta-Feira 13, já usaram muito de um lado sobrenatural. O que é novo nessa produção está mais na maneira como esse lado sobrenatural é explorado. Certamente um dos lados mais cansativos das franquias do gênero é o fato de que seus assassinos, aparentemente humanos, continuam a voltar, mesmo após serem mortos em cada filme. Para alguns, como Freddy Krueger, é até compreensível, visto que Freddy é uma entidade de pesadelos, mas outros, como Jason e Michael Myers de Halloween seriam, supostamente humanos. E mesmo assim, seja por pactos com o inferno, acidentes de ficção científica ou mesmo a fúria de uma tempestade, eles conseguem voltar à vida de novo e de novo.

Rua do Medo não foge a essa tendência, mas a reconhece. Seu uso da ideia de maldição não só esclarece porque esses assassinos continuam voltando (algo que poderia ser usado como explicação inclusive nas sagas clássica), mas estabelece o principal conflito da trama. Os habitantes de Shadyside sabem que não podem fazer nada para parar essa maldição, nem para sair da cidade. Tudo o que resta a eles é continuar a viver um dia após o outro em sua cidade amaldiçoada, e rezar para que não sejam os próximos a serem mortos, ou pior, a se tornarem assassinos. Ao abraçar os clichês do eterno retorno dos Slashers, a trilogia consegue subvertê-la, fazendo com que o mal de seu enredo não seja um único assassino imortal, mas uma presença demoníaca eterna que pode transformar qualquer um em um assassino terrível.

Então, a princípio, a nova trilogia da Netflix possui algo de único e inovador para apresentar ao seu público. O problema é que este ponto inovador não afasta os clichês do gênero, e vê-los sendo explorados ao lado dessa proposta diferenciada acaba sendo um pouco decepcionante pelo desejo de ver algo realmente novo. Para além disso, a proposta mais adolescente acaba sendo tão pesada que, mesmo com a violência sempre presente, acaba restringindo o público a um segmento mais jovem.
Mas mesmo com essa queda para alguns clichês, essas questões estão longe de ser um problema colossal para a trilogia. Não apenas porque a saga foge a algumas questões da fórmula tradicional, mas também porque reconhece e admite o tipo de filme que é, e não tenta enganar o público fingindo ser algo extremamente inteligente ou inovador.

A verdade é que, após quase cinco décadas como um dos principais subgêneros do terror, e pelo menos quatro das mais consagradas franquias do gênero (Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo, Halloween e Pânico), o Slasher já se tornou por demais previsível, e trabalhar com esse subgênero implica ou seguir uma fórmula batida ou se arriscar com algo que, se for mal medido, irá dar muito errado. E mesmo as quatro franquias acima mencionadas não são tão diferentes entre si na execução geral. Suas propostas são bastante únicas, em especial A Hora do Pesadelo e Pânico, mas o modo como seus assassinos agem, a caracterização das vítimas e o caminhar da narrativa ainda assim seguem regras muito próximas das outras duas.

Quando falamos da reinvenção de alguns gêneros do cinema, falamos de algo extremamente necessário. Fórmulas por si só já são desagradáveis, e quando permitimos que essas fórmulas durem décadas, assistir filmes se torna algo angustiante. Essa reinvenção, no entanto, é bastante complicada e pode levar tempo, pois ideias completamente originais nem sempre surgem a todo o momento e mesmo as que surgem nem sempre dão certo. Se uma ideia realmente original dá frutos, é preciso investir e aproveitá-la ao máximo, mas às vezes pequenos passos acabam trazendo conteúdos muito mais satisfatórios.
Rua do Medo pode ser culpada por não se livrar completamente da fórmula do Slasher tradicional? Dificilmente. É uma boa produção que atende aos interesses de um público específico e que joga no seguro, abrindo algumas portas para introduzir novidades e enredos que não são tão vistos nos outros filmes do gênero. No fim, é uma trilogia bem realizada e que cumpre o seu papel. Agradando ou desagradando, a proposta foi boa e entregaram o que prometeram. Em um mundo onde os gêneros do cinema estão cada vez mais decepcionantes e previsíveis, isso já é alguma coisa.